Ele disse

Ele disse que eu não sirvo

Que meu corpo não se encaixa

Que meu jeito o assusta

Que meu cabelo eh menos liso

Que não gosta das minhas perguntas

Que minha intensividade não é civilizada

Que sou legal mas não dá

Ele diz e me faz sentir que não sirvo

Que ainda podemos nos falar e isso deveria bastar

Ele diz o suficiente e o que não digo me engasga

Ele diz tanto e não digo nada

Ele diz estar confuso e me sobra dizer adeus.

E de tantos ditos não ditos só me resta dizer aqui tudo que ele não estava disposto a ouvir.

Poemizando…

Poemas habitam noutra dimensão parcamente compreendida, indo para muito além da suposta imaginação humama vulgo ilimitada.

Calcada bem no centro da abstração máxima de se ser inrotulável. Sobre essa galáxia pouco explorada, lanço-me ocasional e hesitantemente; ora por coragem ora por desespero.

Por vezes permito-me pensar que trata-se de um salto de fé; ou, menos pretensamente, de um pequeno passo ritmado pelo tambor do meu medo.

O desconhecido que aliena e impossibilita tem o exato tamanho que o conferimos.

O buraco sem luz da minha galáxia se desfragmenta em múltiplos espaços vazios num interior mutável.

Essa atroz existência inexistente que consome a energia de cada dia tanto tortura quanto catalisa.

A inércia que se alterna com a minha turbulência, contradiz e desafia a minha modesta porção de sanidade.

É tão insano o estar vivo quanto o não estar.

Enquanto macero esse paradoxo no céu da minha boca, deixo colidir por ora todos os mundos que existem dentro de mim….

O “Planner”

Ganhei um pretensioso Planner de presente

Talvez na intenção de me fazerem organizada

Ao abri-lo me deparo com variadas demandas

O objeto me solicita tantas respostas que eu não tenho para dar

Exige definições prontas do que sou

Coisas que ainda não descobri

Algumas serão infindáveis incógnitas

O mundo não lida bem com incógnitas

Então, o que me resta fazer?

Traçar uns pequenos planos modestos

Esperando que alguns se realizem

Mas o mundo engole sonhadores e vomita empreendedores

Eu sei que não sei me empreender

O que fizeram com a filosofia? Ela foi extirpada

Não se cabe filosofar num mundo onde o que vale é a moeda

O planner me dita proposições

De mim espera ações

Mas se a gente acontece na vida do nada, sem planejar

Como esperar que se organize

Se controle e regule toda esse caos

Essa desordem que não cabe numa agenda tão pretensiosa?